VER[e]FICAR Interview

Interview given to the cultural/entertainment portuguese website VER[e]FICAR (in portuguese):

http://www.vereficar.com/the-luny-milky-show-as-travessuras-de-duas-amigas-improvaveis-contadas-pela-animacao-nacional/

 

 

Entrevista dada ao site portugês sobre cultura e entretenimento VER[e]FICAR:

http://www.vereficar.com/the-luny-milky-show-as-travessuras-de-duas-amigas-improvaveis-contadas-pela-animacao-nacional/

 

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Entrevista:

“THE LUNY & MILKY SHOW”: AS TRAVESSURAS DE DUAS AMIGAS IMPROVÁVEIS CONTADAS PELA ANIMAÇÃO NACIONAL

Em 2007, Carlos Oliveira ficaria conhecido por ter ganhado o concurso promovido pela banda Incubus, o que lhe valeu ter a sua animação escolhida como videoclipe oficial duma música do grupo. 8 anos depois, Carlos continua a possuir a paixão e o gosto pela animação – desta vez, apresenta-nos um projecto divertido, o “The Luny & Milky Show”. Esta série conta as travessuras de Luny e de Milky, uma menina e a sua gata. Com um humor perspicaz e inteligente, Carlos baseia-se na sua própria experiência para despertar gargalhadas entre miúdos e graúdos.

Nesta entrevista poderá conhecer esta série animada, bem como o percurso de Carlos no mundo na animação e o que pensa do panorama nacional. Não deixe de ler e de apoiar.

Ver[e]Ficar: Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o contacto para a realização desta entrevista. Fale-nos um pouco mais sobre este projecto: como e quando surgiu a ideia para a criação do “The Luny and Milky Show”?
Carlos Oliveira:
Eu também agradeço o interesse e a oportunidade de falar sobre o projecto.

Bem, desde sempre que gostei de desenhos animados e tive interesse em fazer algo assim. Nunca deixei de ser um consumidor do género, e, conforme me fui deparando com o conhecimento e ferramentas que me facultavam a possibilidade de criar e animar, tornava-se cada vez mais urgente esse chamamento; porém, havia sempre algo que não facilitava a tarefa. Há coisa de dois anos, após várias conversas de incentivo com amigos (e não só), e graças a um grande apoio da Diana, a minha namorada, comecei a arquitectar tudo de forma mais séria; e, pronto, aqui estão finalmente os primeiros episódios.

Ver[e]Ficar: As curtas têm a duração de um minuto e contam as aventuras (e travessuras) da Luny e da sua gata Milky. Como surgiu a inspiração para estas pequenas histórias e a que público são maioritariamente dirigidas?
C.O.:
Como referi, a vontade esteve sempre presente, portanto foram inúmeras as ideias muito diferentes em estilo e mensagem que me foram passando pela cabeça ao longo dos anos. Contudo, o momento em que comecei a levar isto mais a sério coincidiu com várias mudanças na minha vida, e duas delas foram o nascimento da minha sobrinha Luna e a adopção da minha gatinha Milka.

Ao longo dos primeiros meses, fui-me fascinando com as semelhanças entre a personalidade de uma e de outra enquanto iam crescendo; ambas bastante dinâmicas e agitadas, inspirando sempre um sorriso aqui e uma gargalhada ali. Então, quando se cruzaram em pessoa (e em felino) pela primeira vez, foi surpreendente como comunicavam e como interagiam tão naturalmente. Uns meses depois, quando me lembrei de toda essa situação, foi quase óbvio que teria mesmo de ser esta a premissa para esta primeira série de desenhos animados. Quanto ao público alvo, a ideia era atingir todas as pessoas, e de todas as idades, que não tenham preconceitos quanto a ver “bonecos animados” (risos), apesar de uma parte de mim tender para seguir os passos de referências que me marcaram, como Ren & Stimpy, e nem sempre isso ajuda a manter o nível completamente “seguro”, mas faço um esforço consciente para não exagerar muito quanto às mensagens provocatórias, ou algum momento mais absurdo que possa surgir (risos).

Ver[e]Ficar: Falando um pouco mais de aspectos técnicos: em geral, como se processa a criação dos episódios? Quantos elementos são, como trabalham e que recursos utilizam para o “The Luny and Milky Show” seja lançado online?
C.O.:
 O processo de criação destes episódios é dividido em três fases principais, que são o planeamento, o desenvolvimento e os acabamentos. Na fase de planeamento, eu e a Diana exploramos uma ou outra das ideias que vamos lançando no ar de vez em quando – e que se vão acumulando numa “base de ideias que podem ou não dar em alguma coisa” (risos) – e tratamos de escrever uma história pequena que terá, no máximo, meia ou um página.

A fase de desenvolvimento é essa tal execução na qual se concretizam todos os cenários, personagens e ilustrações adicionais necessárias para a animação respectiva. É também aqui que se procede à animação propriamente dita, a qual é feita através da técnica de simulação da animação por recortes, através de um programa em tempos popular chamado Flash. Este processo é executado apenas por mim, servindo-me dalguma experiência acumulada nesta técnica e fazendo-a ao meu ritmo. A fase de acabamento já implica acertos do que acontece na animação com os sons que vão povoar e dar mais vida aos episódios, e inclui obviamente as falas do narrador e das personagens. Para captar essas mesmas vozes, recorro à ajuda de um amigo de longa data chamado Alex Clément. Depois de feito, resta apenas exportar o vídeo, fazer upload no “Vimeo” e rezar para que este tenha mais visualizações do que o episódio anterior (risos).

Ver[e]Ficar: Actualmente, assistimos à extensiva utilização de imagens geradas por computador (a chamada CGI, em inglês) na animação, maioritariamente no que diz respeito a efeitos 3D. Qual é a sua visão pessoal no que concerne a esta perspectiva? Acredita que o futuro da animação já não inclui técnicas 2D? Pessoalmente, qual é o tipo de ferramenta ou técnica que prefere usar?
C.O.:
As possibilidades que o CGI permitiram são realmente fascinantes, e eu próprio sou adepto desse cruzamento de realidades que a técnica facultou. Por vezes, quando apenas desenho (sem intenção de animar), exploro uma técnica que procura aplicar algum do realismo das texturas e das sombras do nosso quotidiano para o mundo fantasiado da ilustração, com o fim de aproximar mais essas criações de nós. Penso que foi aí que o CGI triunfou, e seria hipócrita da minha parte dizer que desgosto e que a considero como a perdição do mundo da animação.

No entanto, penso que a regra mantém-se no que diz respeito à qualidade – há coisas boas e coisas más em tudo, e um mau filme com CGI será um mau filme, tal como um bom filme em animação 2D acabará por ser um bom filme, portanto parte muito de uma atitude honesta das pessoas para com aquilo que vêem. Contudo, e infelizmente – e esse sim, acho que é o problema – as pessoas parecem focar a sua atenção maioritariamente nos ditos filmes de animação 3D, acabando por desconhecer a realidade actual no 2D. Para cada “Minions” ou “Hotel Transylvania” existe um hercúleo esforço na realidade das duas dimensões; um “Ernest et Célestine” ou um “Song of the Sea” são também muito bons, mas nem toda a gente os conhece, pois as grandes produtoras estão a apostar nesse mesmo CGI pela procura que o público tem demonstrado nesse sentido. A verdade é que muito disto, acredito, também está relacionado com o complexo antigo de os desenhos animados se destinarem apenas a crianças, e agora a geração que tem o poder de compra vê nestas animações 3D o meio termo em que já é “aceitável” um adulto ver um filme em desenho animado. Apesar de as histórias actualmente possuírem também conteúdo dirigido a adultos, o CGI parece ter-se tornado a desculpa ideal para um adulto poder ver “desenhos animados” sem preconceito. Penso que é um pouco por isso que o 2D vai sobrevivendo na internet, porque proporciona um consumo rápido e de satisfação individual, podendo, por isso, servir como apoio da animação 2D até que ela se consiga desprender de preconceitos (claro que há excepções como os “Simpsons” ou “Family Guy”, mas estas são séries que se tornaram populares desde cedo e têm um elevado rendimento). A eliminação do preconceito poderá vir a acontecer ou não, dependendo das próximas gerações e, principalmente, se estas irão considerar que algo possui suficiente qualidade ao ponto de se apostar em converter para outros formatos media, como aconteceu com “Happy Tree Friends”, que passou de uma série que existia apenas na internet para uma série televisiva, mesmo tendo tempo de antena limitado.

É de resto por aí que muita da animação 2D tem sobrevivido, a servir como séries de animação para crianças, mas sempre debaixo da sombra das congéneres feitas em CGI. Seja como for, acredito que quando algo prova que tem qualidade alguém há-de dar-lhe atenção, mais cedo ou mais tarde, independentemente de ser em 3D ou em 2D. É isso que me motiva a prosseguir com esta técnica, que é realmente aquela com que me identifico e pela qual tenho maior paixão.

Ver[e]Ficar: Como considera o panorama português relativamente ao mercado da animação, nomeadamente das curtas? Acredita que, com o surgimento de festivais dedicados ao tema, tem existido uma evolução em território nacional na divulgação desta arte?
C.O.:
Quando referi o preconceito em relação aos desenhos animados era mesmo nisto que pensava. A animação em Portugal tem alguns bons exemplos, nomes que até carregam trabalhos muito bons, como Regina Pessoa, que realizou “História trágica com um final feliz”, ou José Miguel Ribeiro, que chegou a ser quase uma super-estrela da animação mundial, com o filme “A Suspeita”. Infelizmente, Portugal não acredita nestes valores, e estes realizadores são vistos como excêntricos num mundo de excêntricos, que é aquilo em que os festivais se tornaram, quando deviam ser amostras de valores passíveis de investimento. No nosso país, a RTP aposta de vez em quando numa ou outra série infantil de produção nacional, mas por pouco tempo, acabando a maioria por desaparecer. A verdade é que é um pouco como o futebol para o desporto; no panorama nacional audiovisual aposta-se muito em novelas, pouco em filmes e ainda menos, ou quase nada, em animação. Conheci vários colegas que faziam animação, e algumas das suas criações até prometiam evolução por parte de quem as fez, mas acabaram por se desmotivar e seguir por outra via. Infelizmente, a animação portuguesa está encurralada no canto dos festivais de animação, e terá de haver um esforço cultural muito grande para que isso mude, daí que hoje em dia seja quase imperativo que o caminho a seguir seja “para lá de Portugal”.

Ver[e]Ficar: Os episódios desta série animada são narrados em inglês. Porquê o uso desta língua? Considera que é uma forma de chegar a um público mais internacional? E qual tem sido a resposta do público?
C.O.:
Sim, está relacionado com aquilo que referi anteriormente. Não faz sentido pensar apenas a nível nacional, tendo em conta este panorama, quando existe a possibilidade de alcançar um público muito maior. É um pouco triste saber de histórias de animadores nacionais, que são considerados referências de respeito, que não ganham quase nada com a animação e nela trabalham quase 8 horas por dia, acabando por ter de recorrer a empregos em instituições, no ensino ou na publicidade para sobreviverem.

Quanto à recepção, tem sido positiva, apesar de ainda ser algo muito novo e por isso não possuir tantas visualizações quanto o que seria desejável. Pretendemos continuar a apostar cada vez mais na qualidade para que, e gradualmente, cada vez mais pessoas se juntem ao nosso público.

Ver[e]Ficar: O Carlos Oliveira (ou Kaamuz) ficou publicamente conhecido por ter ganhado o concurso que escolheu o seu vídeo como videoclipe oficial da música “Dig”, da banda Incubus, em 2007. Desde então, o que mudou na sua vida? A animação continua (e continuará) a ser um projecto a longo prazo?
C.O.:
Por incrível que pareça, o que mudou foi apenas a nível pessoal. Não existiram grandes convites, contratos ou ofertas. Houve uma ou outra conversa sobre ideias, uma ou outra proposta para um pequeno trabalho, mas eram tão limitadas que não compensavam, daí que tudo se manteve sobreponível. A única mudança foi a nível de confiança no meu trabalho e na minha capacidade de criar, e sobre aquilo que eu próprio crio. Infelizmente, no nosso país temos aquele vício de só valorizar alguém quando é bem sucedido internacionalmente – a nível musical isso já se comprovou várias vezes: Moonspell, Wraygunn ou Noiserv são alguns exemplos – e o que essa experiência me proporcionou foi um pouco como o libertar-me desse mesmo preconceito em relação a mim mesmo. Permitiu-me acreditar em mim próprio e no meu trabalho. Tudo o resto serviu para ganhar mais experiência e esperar pelo momento certo para que tivesse o tempo e a disposição para seguir com novos projectos deste género, sendo que o “The Luny and Milky Show” é o primeiro de muitos, espero eu.

Ver[e]Ficar: E que planos existem para o futuro?
C.O.:
Acabámos de explorar a vertente temática dos feriados com um episódio especial para o Halloween no sexto episódio, e agora o futuro imediato passa por outro para o Natal (risos). Creio que serão momentos divertidos. De qualquer forma, existe a intenção de criar (entre outras coisas mais pequenas como gifs animados escreensavers) urban toys da Luny & Milky, mas é algo que ainda irá demorar um pouco. Relativamente ao futuro para lá deste projecto, há muitas ideias, mas infelizmente só com tempo é que seria possível explorar uma percentagem delas; porém, uma das minhas cismas passa por explorar algo dentro do riquíssimo imaginário histórico que temos. Tentar ver se se consegue ressuscitar o orgulho de ser português, e ver se à boleia se incutia algum orgulho à animação nacional, já agora (risos).

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